terça-feira, 27 de março de 2012

Um copo de leite



 

o que me dá sono
não é apenas a tarde de domingo
o discurso interminável
a poesia sem nexo

 

não é só o sexo
o fogão à lenha
a "Doce Vida" de Fellini
ou o novo vencedor do Oscar

 

não são apenas os pseudo-intelectuais
as críticas usurpadas
paredes diplomas
água morna
paisagens em cor pastel

 

meu sono é embalado pela mesmice
que murmura uma leve canção de tédio.

(Eduardo Barbossa do livro "O auto do destrutivo")

quinta-feira, 22 de março de 2012

O mundo dos sonhos




temia a imprevisibilidade do sonho


a qualquer momento

                        um monstro

           poderia sair

de um armário qualquer



                         hoje

             ao contrário



temo as certezas da realidade

              (sinto falta dos sonhos)





(Eduardo Barbossa, do livro "O compendium da queda - Impacto da realidade" - Inédito)




 

quarta-feira, 21 de março de 2012

Abandono

 
não me desampare

estou só (como sempre estive)

louco (doente de aflição)

triste (carente de abraços)


 
escapa-me o norte

desvanece-me o chão


arrebenta-me o fio do prumo

 
tateio paredes
em busca de interruptor
que ligue a esperança
(tateio a face em busca de sorriso)

"..."

                           busco sua mão e não encontro





(Eduardo Barbossa no livro "Minhas Simplicidades" )

segunda-feira, 19 de março de 2012

Nossa nova e confusa Amélia


 

moro em uma casa que fede abandono

móveis cobertos com poeira de solidão

louça por lavar

sexo por fazer


 

ela ignora que somos seres vivos (casa e eu)

e deixa que os dias se acumulem sobre nós


 

a filha chora por atenção

enquanto nós (casa e eu)

mantemos o silêncio sob a roupa suja no chão da lavanderia

existe muito a lavar

(porém ela resiste ao impulso)


 

o trabalho fora a consome

o salário é essencial para manter os cosméticos


 

e nós

sempre estaremos aqui

a aguardar seu retorno

com nossa organização masculina

nossa educação masculina

nossas contas de água e luz (estritamente masculinas)

e nossa solidão (assexuada)


 

nós

casa e eu

queremos combater o mofo que invade as paredes

lavar a louça

varrer

amamentar

mas não sabemos como

(nossa masculinidade nos prejudica)


 


 


 

(Eduardo Barbossa no livro "Minhas Simplicidades")

quarta-feira, 14 de março de 2012

Cotidiano


amarrado à velha árvore do mundo
        espero

 

quando tento mover-me as cordas apertam
(em insuportável dor)

 

corvos sussurram obscenidades
minhas chagas invadidas por formigas
o sangue que escorre é cobiçosa bebida
todos querem um pouco mais de mim
(aguardam minha carne)

 

durante o dia
o sol queima a pele
durante noite
o vento congela os ossos

 

durmo acordado
devaneio realidades

 

vejo o horizonte
    e imagino além
vejo plantas
    insetos
    homens
        e imagino

 

talvez tire algo de bom desta passagem
talvez aprenda algo de importante
    que não seja apenas
        estagnação
        imobilidade
        e a vã espera

 

amarrado à velha árvore do mundo
        permaneço


(Eduardo Barbossa do livro "Minhas Simplicidades")

segunda-feira, 12 de março de 2012

Depressão



de pressão

em pressão

desacreditado à apatia

aviltado ser à adinamia

congruência irônica

entre depreciação e aceitação.



(Eduardo Barbossa do livro "O auto do destrutivo")